sexta-feira, 1 de abril de 2011

Debussy

Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Um novelozinho de linha...
Para cá, para lá...
Para cá, para lá...
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai...)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
- Psiu... -
Para cá, para lá...
Para cá e...
- O novelozinho caiu.

Manuel Bandeira

Acalanto de John Talbot

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descançar,
Que te guardo eu.

Manuel Bandeira

Azulão

Vai
Azulão,
Azulão,
Companheiro,
Vai!
Vai ver minha ingrata.

Diz
Que sem ela
O sertão
Não é mais
Sertão!

Ai voa!
Azulão,
Vai contar
Companheiro,
Vai!

Manuel Bandeira

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundíce do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Toada

Fui sempre um homem alegre.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de toda a alegria:
Fiquei triste, triste, triste.

Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
Sem vida dentro de mim.

Manuel Bandeira

Pardalzinho

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Manuel Bandeira

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sacha

Sacha muchacha,
Nariz de bolacha!

(Meu estro não acha
Outra rima em acha.

Por isso se agacha,
Se cobre de gracha,
Se arranha, se racha,
Se desatarracha
E pede em voz baixa
Desculpas a Sacha.)

Manuel Bandeira

Vozes na noite

Cloc cloc cloc...
Saparia no brejo?
Não, são os quatro cãezinhos policiais bebendo água.

Manuel Bandeira

Madrigal do pé para a mão

Teu pé...Será início ou é fim? É as duas coisas teu pé.

Por quê? Os motivos são tantos!
Resumo-os sem mais tardanças:
Início dos meus encantos,
Fim das minhas esperanças.

Manuel Bandeira

Outra trova

Sombra da nuvem no monte,
Sombra do momte no mar.
Água do mar em teus olhos
Tão cansados de chorar!

Manuel Bandeira

Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada!Você parece louca.

Manuel Bandeira

Trova

Atirei um lgmão doce
Na janela de meu bem:
Quando as mulheres não amam,
Que sono as mulheres têm!

Manuel Bandeira

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia á toa, á toa"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida á toa, á toa...

Manuel Bandeira

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonaçhão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira

Porquinho-da-índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Manuel Bandeira

Madrigal tão engraçadinho

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive
[o porquinho-da-índia que me deram
quando eu tinha seis anos.]

Manuel Bandeira

A onda

A ONDA
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onde ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda anda

Manuel Bandeira

quarta-feira, 30 de março de 2011

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

Manuel Bandeira

O amor, a poesia, as viagens

Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa - um deserto...
- Pará, capital Belém!...

Manuel Bandeira

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estrjaga o amor.
Sô em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira